A Porta Estreita
O dia em que aceitei a Cristo e o dia em que finalmente me entreguei
Salvador sim. Senhor… ainda não.
Aceitei a Cristo como meu Salvador em 1999, mas foram necessários 13 anos para finalmente reconhecê-Lo também como Senhor da minha vida.
Essa lacuna entre acreditar e me entregar gerou consequências profundas e dolorosas. Aos poucos, minha vida começou a ruir: me afastei de um ministério, depois de outro e de outro; veio a separação e o rompimento do matrimônio, o distanciamento da fé na minha casa, várias enfermidades, depressão e, por fim, a minha quase morte.
Eu não percebia, mas vivia espiritualmente fragmentada.
Construindo sobre a areia
No período entre 95 e 96, eu achava que estava formando uma família, mas minha união não era legalizada, nem perante a lei, nem perante Deus. Eu vivia em União Estável, mas sem uma benção; sem a benção do meu pai ou sem a tradicional benção religiosa. Eu e meu marido (hoje um grande amigo) vivíamos decididos a fazer diferente do que vimos e vivemos nas nossas famílias. Eu tinha uma história, frustrações e mágoas não resolvidas. Do outro lado meu marido também tinha as dele. Tentávamos manter de pé uma casa construída sobre alicerces frágeis para o corpo, para a alma e para o espírito.
Na vida profissional eu era completamente workaholic, ao extremo, por fora era uma mulher adulta, orgulhosa dominada pelo ego, mas por dentro uma criança ferida e birrenta. Eu era um barril de pólvora que achava normal viver em alerta.
Eu buscava segurança no trabalho, paz em distrações, amor e reconhecimento em lugares que jamais poderiam preencher o vazio que eu carregava. Eu desconhecia completamente as leis espirituais e da física quântica. Eu achava babaquice a maioria dos discursos, o papo de "casar virgem", de casar de "papel passado", etc. Enfim, eu vivia distante de tudo que representava fé e conexão com Deus.
O dia em que a Igreja virou casa
Tudo começou a mudar quando, pela primeira vez, me senti emocionalmente acolhida em uma igreja cristã. Me senti em família.
Ver e sentir o mover do Espírito Santo de Deus foi lindo, foi doce. Senti uma presença viva, amorosa e transformadora. Meu primeiro contato com uma igreja foi numa casa simples na Vila Ema, Zona Leste de São Paulo.
Eu e meu marido passamos a frequentar aquele lugar e fomos impactados, eu estava grávida e logo Philippe nasceu. Mas em pouco tempo precisamos abandonar o apartamento alugado e nos mudamos para uma kitnet no centro de São Paulo na Vila Buarque.
Ficamos afastados daquela igreja por um tempo, pois não era possível frequentar os cultos na Vila Ema. Em pouco tempo a vida foi mudando (de novo) e a última alternativa estava em Deus.
Meu marido descobriu uma comunidade cristã no bairro, e lá fomos acolhidos como filhos. Logo me envolvi nos ministérios, passei a sentir um propósito, um chamado, mas o ativismo predominou.
Apesar do ativismo, experimentei o chamado Primeiro Amor; a paixão pelo Evangelho e o desejo de servir.
Adotei meus pastores como pais, e meus irmãos de ministério como família.
O erro que quase me destruiu: silenciar o passado
Amei o Evangelho desde o início. Mas, como neófita, me apropriei de forma literal de versículos como:
“Se alguém está em Cristo, nova criatura é…”
2 Coríntios 5:17 | “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”
“Esquecendo-me das coisas que para trás ficam…”
Filipenses 3:13 | “…mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim…”
E eu, ali com cerca de 25, 26 anos, o que foi que eu entendi? Novata na fé, como eu interpretei essas passagens e tudo o que era ensinado nos púlpitos?
“Apague tudo! Esqueça tudo! Você é nova criatura! O passado ficou para trás! Olhe pra frente e foque no futuro! Construa seu futuro! Sonhe!”
Pois é, acabei enterrando, soterrando tudo num quartinho escuro do meu coração. Todas as frustrações e mágoas da infância, da juventude, das relações com mãe, com pai. Todas as dores, rejeições, vergonhas, abusos, traumas, crises e experiências ruins, eu enterrei. Sem perceber, eu estava adubando as raízes de uma depressão devastadora.
E eu acreditava que estava em obediência a Deus, mas foi nesse momento que em lugar do caminho de cura eu segui por um caminho doente, defeituoso. Quando aceitei a Cristo em 99, naquela comunidade no centro de São Paulo, eu tinha sérios problemas de alma. Aceitei a Cristo como Salvador, mas não tinha a menor ideia que Ele queria ser Senhor em mim. Aquele quartinho escuro e trancado, eu mantive trancado. Em pouco tempo ele começou a mofar, começou a feder.
Me perdi dentro da minha própria fé. Virei uma cativa dentro da fé cristã. Por fora eu servia a Deus, mas me mantinha ferida por dentro. E logicamente como nada fica encoberto diante de Deus, o momento de ruptura seria inevitável.
O derrame: quando o corpo grita o que a alma não aguenta mais
Desde a conversão em 99, minha vida mudou inúmeras vezes, mas foi apenas depois de um terrível AVC isquêmico, que eu entendi o que Cristo tentava me dizer há anos:
Ele queria ser Senhor da minha vida, não apenas meu Salvador.
Fiquei frente a frente com a possibilidade real da morte, e ali percebi como eu estava doente. Eu estava doente no corpo, na alma e no espírito. Todas as minhas células e átomos, elétrons e prótons... todos gritavam por socorro.
Procurei ajuda. Procurei respostas. Busquei até encontrar.
E, nessa busca, encontrei a porta estreita.
Somente depois de muitos anos, eu fui capaz de compreender Mateus 7:13-14, com os olhos e ouvidos espirituais de quem quase não voltou dessa vida.
"E porque estreita é a porta, e apertado o caminho.."
Mateus 7:13–14 | “Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela. E porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.”
A entrega que mudou tudo
Foi então que no mais absoluto "Nada", naquele vazio extremo, eu coloquei minha vida inteira, passado, presente e futuro, nas mãos daquele que já havia me resgatado em 99.
Pela primeira vez, fui capaz de entregar o controle. Entreguei tudo. Entreguei todos os medos, todas as feridas, novas e antigas. Tirei tudo que estava escondido naquele quarto escuro.
E Cristo pôde novamente, me receber por inteiro e sem censura. Enfim, Ele seria Senhor em mim. E nessa força fui seguindo, um passo de cada vez. Foi extremamente difícil e doloroso, mas eu sentia que não estava só. Até nos momentos mais doídos do corpo, em que eu lutava para reativar meus nervos e músculos, eu tinha meus ouvidos bem abertos e atentos, até que em um dia de muita dor eu verbalizei:
"Senhor, eu sei que não posso tirar a minha própria vida, mas o Senhor pode me levar...", e a resposta foi clara e audível:
"Então porque você pediu para nascer de novo?"
Fiquei em choque e na mesma hora pedi desculpas e retirei o que eu disse.
A restauração: lenta, real e cheia de graça
Hoje mesmo após estar plenamente reabilitada, com poucas sequelas mas reabilitada, sigo em processo de cura. E por que? Porque a Palavra de Deus é viva, porque Deus está vivo e porque Cristo vive em mim. É parte de mim. Está no meu DNA.
Hoje, não busco a perfeição, busco apenas ser a minha melhor versão.
Sigo em conhecer a Deus, caminhando continuamente em direção a um nível cada vez maior e mais profundo de entendimento, intimidade e maturidade espiritual.
E Ele, continua me surpreendendo diariamente com Sua direção amorosa e gentil. Fala comigo quando pergunto. Me acalma quando choro. Me anima quando estou triste. Me enche com Sua presença quando me sinto só.
Por isso posso prosseguir. Por isso posso viver com propósito. Por isso posso caminhar, ter planos, metas, sonhos. Posso acreditar em milagres por que eu SOU um milagre! Sou filha! Tenho plena consciência disso! Tenho profunda gratidão pela segunda chance que recebi; uma nova chance de continuar viva, e contar pra você sobre o que vivi.
Minha fé hoje
Hoje sou uma espiritualista livre que ama profundamente a Cristo. Entendo minha fé não como um rótulo, mas como uma jornada viva e íntima com Deus.
E sigo. Sigo firme, restaurada, desperta, consciente, lúcida e guiada pelo Amor. Vou seguindo rumo à vida plena! Vou vivendo verdadeiramente, e não apenas existindo!
E você que me leu até aqui: "Faça você o mesmo!"
Oro para que as reflexões que compartilho neste blog, "falem" ao seu coração.
E, se precisar, estou à disposição.
Um forte abraço, te amo em Cristo!
Anne