Quantos lutos cabem em uma vida?
Uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, todos precisaremos nos fazer.
Há experiências e vivências tão brutais, que acabam moldando ao nosso redor, imensos muros para nos proteger.
Com o passar dos anos e das experiências diversas não digeridas, acabamos nos tornando pessoas duras, de pavio curto, por vezes agressivas; e, sem perceber, magoamos até quem mais amamos.
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| Quantas lápides há em sua alma? |
Naquele momento, eu não percebi que estava recebendo mais do que uma alta médica, era também uma alta social. Alta do único lugar que me acolheu e me amparou após o AVC que sofri.Era hora de mais uma mudança. Mais uma etapa a ser vivida e superada.
Aprendi sobre o luto ainda na infância, com a morte dos meus cães de estimação, fiéis e amorosos companheiros. Perdi tantos amigos peludos, que só de lembrar deles agora me vêm as lágrimas.
Essas pequenas vidas foram literalmente arrancadas de mim.
Lembro de cada um, e das circunstâncias que os levaram.
Aos nove anos vivi outro tipo de luto: a separação dos meus pais.
A ausência de um pai no lar é, sim, absurdamente difícil.
Lembro-me deles dizendo:
“...nada vai mudar...”
Pura mentira.
É isso mesmo: men-ti-ra.
Tudo mudou.
Com eles juntos era ruim, quase insuportável.
Com eles separados, continuou ruim... e, anos mais tarde, quase fatal também.
Além do pai perdido, perdi uma mãe que tentou preencher o vazio com o álcool.
Mesmo presente fisicamente, ela estava ausente emocionalmente.
E perdi meu pai de novo, aos poucos, em fragmentos.
Em certo momento, ele decidiu formar uma nova família, uma nova esposa já com dois filhos. O pacote pronto.
Cruel!
Perdi o pai que era só meu.
Perdi a convivência do pai no lar, e nas poucas oportunidades aos finais de semana a pouca atenção, ainda era compartilhada.
“A culpa é de quem?”, pergunta a música do Legião Urbana.Minha? Sua? Dele? Dela? Do destino? De Deus?
(Legião Urbana)
